Por: Autor: Fernando Exman – Valor Econômico
O amplo corredor que dá acesso ao
gabinete da presidente Dilma Rousseff, no terceiro andar do Palácio do
Planalto, receberá em breve uma nova peça de decoração: um raro relógio
fabricado pela família que atendia a corte de Luís XIV substituirá o quadro
"Barbearia", de Francisco Galeno. A peça, avaliada em aproximadamente R$
250 mil, estava esquecida num depósito do governo. Agora, pode se tornar
símbolo da busca feita recentemente pela Diretoria de Documentação Histórica do
Gabinete Pessoal da Presidente da República nos galpões e palácios
presidenciais. Restaurado, o relógio passará a marcar um novo tempo nos
cuidados dispensados a objetos de arte e mobiliário, não apenas em respeito a
seu valor histórico, literalmente, mas também na atualização de seu valor
material, reduzido a quase nada numa contabilidade carcomida por seguidas
desatualizações monetárias e pelo descaso de uma máquina burocrática pouco
afeita a considerações de ordem estética.
Para que o relógio seja instalado em
seu novo espaço, o governo precisará realizar uma licitação para contratar um
especialista que consiga fazê-lo voltar a funcionar - pendência a ser resolvida
a curto prazo. A criação de um mecanismo que leve servidores de todos os
escalões da administração federal a ter mais cuidado com o acervo público, por
sua vez, ainda precisará ser estudada pelo Ministério do Planejamento,
Orçamento e Gestão para sair do papel.
A pauta não é de simples solução. O
diretor de Documentação Histórica da Presidência, Claudio Soares Rocha, conta
que o valor de diversos móveis e peças de arte do governo foi reduzido a
praticamente zero. Assim como ocorre na declaração do imposto de renda, esses
ativos foram registrados no patrimônio público da União com o valor de compra
da época da aquisição. Com os sucessivos planos econômicos e mudanças de
moedas, a administração pública optou por atribuir a esses itens o valor
simbólico de R$ 0,01.
A desvalorização acabou reduzindo a
preocupação de gestores e servidores públicos com a manutenção e o cuidado no
trato desse patrimônio. Por isso, decidiu-se dar os primeiros passos para
alterar essa situação. Soares Rocha aproveitou um convite da ministra do
Planejamento, Miriam Belchior, para fazer a curadoria de seu gabinete e advogou
a mudança na atual metodologia de contabilização desses ativos.
Soares Rocha montou um arquivo de
referências de valores, com anúncios publicados em sites estrangeiros
especializados na venda de móveis assinados por arquitetos ou designers
renomados. As ofertas dão uma ideia de quanto o governo subestima seu
patrimônio. Um par de "cadeiras do juiz", de Jorge Zalszupin, por
exemplo, estava à venda em fevereiro por US$ 11.800. Uma mesa do mesmo
arquiteto era cotada a US$ 8.200, enquanto uma outra, de Sergio Rodrigues,
poderia ser comprada por US$ 18.000. Zalszupin e Rodrigues são justamente
alguns dos nomes de responsáveis pela criação de móveis em recuperação
pertencentes ao acervo da Presidência.
As consequências do descaso com que
esse mobiliário veio sendo tratado podem ser vistas na oficina de restauração
mantida pelo Palácio do Planalto em parceria com o Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Cerca de 700 móveis, na maioria
assinados por Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin, Sergio Bernardes e Joaquim
Tenreiro, estão sendo recuperados. Foram recolhidos em galpões e depósitos de
órgãos federais nos últimos anos, depois que o ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva decidiu restaurar o Palácio do Planalto. Quando o trabalho for
concluído, os móveis que antes estavam abandonados serão reacomodados no
palácio.
A oficina tem também o objetivo de
formar técnicos em restauração de móveis modernos e contemporâneos. Os
aprendizes são 40 jovens de cidades-satélites de Brasília em situação de risco,
que, além do curso prático e de teoria da arte, recebem transporte e
alimentação da Presidência da República.
O projeto foi concebido no governo
passado, quando Lula pediu ao diretor de Documentação Histórica do Gabinete
Pessoal da Presidência e ao arquiteto Rogério Carvalho, braço direito de Soares
Rocha na curadoria do Palácio do Planalto, que um pente fino fosse feito nos
depósitos do governo. O então presidente também decidiu alterar as normas de
exibição dos objetos de arte que fossem encontrados e dos já catalogados. Para
garantir acesso amplo às obras, ficou decidido que as salas de espera e os
gabinetes dos ministros teriam direito a apenas um quadro de autor renomado
cada. O restante do acervo teria de ficar nas áreas públicas dos prédios.
A realocação do raro relógio,
fabricado no século XVIII, seguirá essa orientação. O que atesta a sua
procedência é uma assinatura, do relojoeiro Martinot, gravada na máquina. Outra
marca do fabricante está na base da peça, mas acabou danificada ao longo do
tempo. "É a assinatura na máquina que nos dá a mais absoluta certeza da
sua proveniência", afirma Soares Rocha.
Quando o relógio foi encontrado,
havia um fenda na sua parte superior. Em outra busca, o mistério foi
desvendado. Numa serralheria da Presidência, foi encontrada uma pequena estátua
de Netuno. Um antigo funcionário do governo que lá trabalha deu a pista:
lembrou que a estatueta pertencia a um antigo relógio que fora transferido
daquele local havia cerca de 20 anos. De fato, a estatueta se encaixou
perfeitamente no relógio.
"Nossa dúvida, e o que a gente
não vai decifrar nunca, é se o relógio foi um presente para d. Pedro I ou d.
Pedro II ou um presente do Conde d'Eu para a Princesa Isabel", lamenta
Soares Rocha.
O relógio é do mesmo período de
outros três itens encontrados pelos responsáveis pelo acervo da Presidência:
uma "garniture" composta por uma floreira e dois candelabros feitos
de bronze ormolu, material que garante às peças uma "eterna"
coloração dourada. "Isso é certamente francês", observa Soares Rocha.
Ele acredita que, pela idade, as
peças tenham percorrido um grande trajeto antes de serem resgatadas durante a
reforma do Palácio do Planalto. Podem ter já adornado os palácios das
Laranjeiras, Guanabara, Catete e Alvorada. "Estão pelo menos há mais de 20
anos esquecidas em depósitos."
Esses não foram os únicos artigos
"resgatados". Segundo Soares Rocha, o quadro "Baía de
Guanabara", de Lia Mitarakis, foi encontrado num banheiro do Palácio do
Planalto e hoje está exposto num dos halls de acesso ao edifício.
Outro exemplo é o quadro
"Palácio do Planalto", de Firmino Saldanha. Feita especialmente para
decorar o palácio, a obra foi encontrada num canto da garagem do Palácio do
Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República. Antes de ser
retirado do Palácio do Planalto, o quadro ficava na sala de reuniões do
gabinete presidencial. Atualmente, está exposto ao lado da rampa curvilínea que
liga o segundo andar ao mezanino do terceiro pavimento, usada pela presidente
Dilma Rousseff e demais autoridades que a acompanham quando ela deixa sua sala
e desce em direção ao salão onde as principais solenidades são realizadas no
palácio. "Hoje está no terceiro andar do Palácio do Planalto, de onde não
deveria ter saído", diz Soares Rocha.
A busca não se limitou aos depósitos
e garagens da Presidência, onde foram localizados também quatro tapetes e uma
passadeira nacionais dobrados dentro de um saco de juta. "E o palácio
enfeitado com tapete persa...", ironizou Soares Rocha. Foram achados
também dois quadros atribuídos a Juan Miró, cuja autoria ainda não foi
confirmada.
A Diretoria de Documentação
Histórica do Palácio do Planalto resgatou ainda um banco projetado por Oscar
Niemeyer que tomava chuva num almoxarifado da Universidade de Brasília. E
conseguiu obter a guarda de alguns móveis do Congresso Nacional que seriam
leiloados e poderiam, talvez, ser encontrados nos sites estrangeiros que Soares
Rocha monitora.


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